segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar seus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa, como a luz e a vida.
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto.
E em minha voz, a tua voz...
Não te quero ter, pois em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados.
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada.
Que ficou em minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei...
Tu irás e encostarás tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu,
porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque os meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
E eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém, porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas,serão a tua voz presente, tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Vinicius de Moraes

Não sou muito fã de poesia, mas me apaixonei por essa, penso que é porque ela expõe tudo o que realmente penso.

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